|
COISAS DA VIDA
O luto é um sentimento
relacionado a perdas. Normalmente acreditamos que o luto se refere a
perda, por morte, de pessoas queridas. Na verdade o luto se refere a
qualquer perda, seja de um animal de estimação, seja de coisas, seja
de situações a que nos apegamos. Atualmente com o advento dos
calmantes, tornou-se comum, quando há uma perda, recorrer-se a
estes. Não é uma atitude muito saudável. Temos um preparo natural
dentro de nós para enfrentar estas situações, que inclui o auxilio
de outras pessoas. Assim, não precisamos quebrar a ordem natural das
coisas, o que normalmente impede a elaboração adequada do luto.
SUAVE CONFORTO
A menina debruçada na
janela trazia nos olhos grossas lágrimas e o peito oprimido pelo
sentimento de dor causado pela morte de seu cão de estimação.
Com pesar observava atenta o jardineiro enterrar o corpo do amigo de
tantas brincadeiras.
A cada pá de terra jogada sobre o animal, sentia como se sua
felicidade estivesse sendo soterrada também.
O avô que observava a neta, aproximou-se e a envolveu em um abraço e
falou-lhe com serenidade:
- Triste a cena, não é verdade?
A netinha ficou ainda mais triste e as lágrimas rolaram em
abundância.
No entanto, o avô que desejava confortá-la chamou-lhe a atenção para
outra realidade.
Tomou-a pela mão e a conduziu para uma janela localizada no lado
oposto da ampla sala.
Abriu as cortinas e permitiu-lhe que visse o jardim florido a sua
frente e perguntou-lhe carinhosamente:
- Está vendo aquele pé de rosas amarelas bem ali a frente?
- Lembra que você me ajudou a plantá-lo?
- Foi em um dia de sol como hoje que nós dois o plantamos. Era
apenas um pequeno galho cheio de espinhos e hoje veja como está
lindo, carregado de flores perfumadas e botões como promessa de
novas rosas.
A menina enxugou as lágrimas que ainda teimavam em permanecer em
suas faces e abriu um largo sorriso mostrando as abelhas que
pousavam sobre as flores e as borboletas que faziam festa entre umas
e outras das tantas rosas de variados matizes que enfeitavam o
jardim.
O avô, satisfeito pôr te- la ajudado a superar o momento de dor
falou-lhe com afeto:
- Veja, minha filha. A vida nos oferece sempre várias janelas.
Quando a paisagem de uma delas nos causa tristeza sem que possamos
alterar o quadro, voltamo-nos para outra e certamente nos deparamos
com uma paisagem diferente.
Tantos são os momentos de nossa existência, tantas as oportunidades
de aprendizado que nos visitam no dia-a-dia que não vale a pena
sofrer diante de quadros que não podemos alterar.
São experiências valiosas da vida, das quais devemos tirar lições
oportunas sem nos deixar tragar pelo desespero e revolta que só
infelicitam.
A nossa visão do mundo é muito limitada.
Se hoje você está a observar um quadro desolador, lembre-se de que
existem tantas outras janelas, com paisagens repletas de promessas
de melhores dias.
Não se permita contemplar apenas a janela da dor.
Aproveite a lição e siga em frente com ânimo e disposição.
Agindo assim, o gosto amargo do sofrimento logo cede lugar ao sabor
agradável de viver.
CARLOS TURATO - PSICÓLOGO
|